A CASA EM NÚMEROS · N.º 1 · 31 DE OUTUBRO DE 2026
Cento e quarenta e quatro cadeiras
Há casas suficientes em Portugal? Há mais casas do que famílias. O problema é outro.
Gaspar do Amaral · publicado a sábado, 31 de outubro de 2026 · com recurso a IA
A capa explicada. A capa desenha o país como uma sala com 144 cadeiras para cada 100 famílias. As 100 cadeiras com uma pessoa sentada são as casas de residência habitual (69,4 % das casas). As 27 cadeiras cinzentas são casas de fim de semana ou de férias (18,5 %). As 17 restantes estão vazias (12,1 %): 13 tracejadas precisam de obras ou estão fora do mercado, e só 4, a dourado, estão prontas a habitar. Ao lado, 3 pessoas de pé: as famílias sem casa adequada, que vivem numa casa partilhada ou sobrelotada. As contas estão na nota metodológica.
1. A história
Imagine a Rita (o nome é inventado; a situação é comum). Tem 29 anos, trabalha num hospital de Lisboa e procura casa há oito meses. Vê anúncios todas as noites. Quando há um T1 a um preço que pode pagar, já foi arrendado antes de ela telefonar. Ao jantar, o tio diz-lhe, convencido: «Não há casas neste país.»
Os números dizem outra coisa. Em 2021, no último censo, Portugal tinha 5 970 677 casas para 4 149 096 famílias. Há mais casas do que famílias, e há muito tempo. Então porque é que a Rita não encontra casa? É essa a pergunta deste primeiro número.
2. O número da quinzena: 1,44
Por cada família, Portugal tem 1,44 casas. Pense numa sala de aula com 100 alunos e 144 cadeiras. Ninguém devia ficar de pé. E, no entanto, há alunos de pé. Porquê? Porque muitas cadeiras estão empilhadas ao fundo, partidas, guardadas para os fins de semana, ou estão noutra escola, numa terra onde já quase não há alunos.

Figura 1 — Casas por família em cada censo, de 1970 a 2021.
O que a Figura 1 mostra. Cada coluna é um censo. Em 1970 e 1981 havia cerca de 1,16 casas por família: o país estava apertado. De 1981 a 2011 construiu-se mais depressa do que se formaram famílias, e o número subiu até 1,45. De 2011 a 2021 parou: 1,44. A quantidade total de casas não é o problema; o que mudou foi o ritmo, como se vê na Figura 3.
3. As contas, passo a passo
Casas por família em 2021: 5 970 677 ÷ 4 149 096 = 1,44.
Casas vagas em 2021: 723 215. Em percentagem: 723 215 ÷ 5 970 677 = 0,121, ou seja, 12 em cada 100 casas estavam vazias no dia do censo.
Dessas, só 348 097 estavam à venda ou para arrendar (48 %). E, segundo o INE, só 154 075 estavam prontas a habitar, sem obras ou só com obras ligeiras: 154 075 ÷ 5 970 677 = 0,026, ou seja, menos de 3 em cada 100 casas.
Famílias sem casa adequada (carências habitacionais, INE): 136 800. São 75 494 famílias a viver em casas sobrelotadas com outra família, 55 098 em casas sobrelotadas com duas ou mais famílias, 4 042 em alojamentos não clássicos (barracas, por exemplo) e 2 166 em alojamentos coletivos. Soma: 75 494 + 55 098 + 4 042 + 2 166 = 136 800.
Comparação: 154 075 − 136 800 = 17 275. No total do país, as casas vagas prontas a habitar chegavam para as famílias sem casa adequada, e ainda sobravam 17 275.
O ritmo recente: de 2011 a 2021, o país ganhou 5 970 677 − 5 859 540 = 111 137 casas e 4 149 096 − 4 043 726 = 105 370 famílias. São 111 137 ÷ 105 370 = 1,05 casas novas por cada família nova: quase à justa.
Tabela 1 — As casas e as famílias em 2021
| Indicador | Número | Fonte |
|---|---|---|
| Casas (alojamentos familiares clássicos) | 5 970 677 | INE, Censos 2021 |
| Famílias | 4 149 096 | INE, Censos 2021 |
| Casas por família | 1,44 | Conta própria |
| Casas vagas (total) | 723 215 | INE, Censos 2021 |
| Vagas à venda ou para arrendar | 348 097 | INE, Censos 2021 |
| Vagas prontas a habitar | 154 075 | INE (2024) |
| Famílias sem casa adequada | 136 800 | INE (2024) |
| Folga (prontas − carências) | 17 275 | Conta própria |
INE (2024): «O parque habitacional: análise e evolução 2011-2021», com base nos Censos 2021.

Figura 2 — Casas vagas e famílias sem casa adequada, em 2021.
O que a Figura 2 mostra. A barra de cima é grande: 723 215 casas vazias. Mas desce depressa: menos de metade está no mercado, e só 154 075 estão prontas a habitar. A barra vermelha, as famílias sem casa adequada, é um pouco mais pequena do que a das casas prontas. No papel, chegava. Na vida, não chega, porque as casas e as famílias não estão no mesmo sítio.

Figura 3 — Casas novas concluídas por ano.
O que a Figura 3 mostra. Em 2001 acabaram-se 125 708 casas novas. Em 2015, só 7 148: uma queda de 94 % (1 − 7 148 ÷ 125 708 = 0,943). Desde então a construção recuperou, para 27 301 em 2025, mas continua a menos de um quarto do máximo. É esta travagem que explica porque é que as cadeiras não aparecem onde os alunos estão a chegar.
4. O que quer dizer na sua vida
O tio da Rita está errado no total e certo na vida dela. O país não tem falta de casas; tem falta de casas prontas, à venda ou para arrendar, perto de onde as pessoas trabalham. É como um hospital com camas livres no Alentejo e doentes à espera em Lisboa: o número total de camas não cura ninguém.
Por isso, quando ouvir «faltam casas» ou «sobram casas», pergunte sempre: onde, em que estado, e a que preço? Os próximos números respondem a cada uma destas perguntas.
5. Leitura por público
Para a família
Procurar um pouco mais longe pode ser a diferença entre encontrar e não encontrar casa. Some o transporte à renda: uma casa 50 euros mais barata a 40 minutos de comboio pode sair mais cara do que parece.
Para estudantes
Exercício: com os números da Tabela 1, calcule quantas casas vagas há por cada família sem casa adequada (723 215 ÷ 136 800 ≈ 5,3) e quantas prontas a habitar (154 075 ÷ 136 800 ≈ 1,13). O que muda na conclusão?
Para o autarca e o técnico municipal
O número que interessa é o do seu concelho: quantas casas vagas, em que estado e porque não estão no mercado. O total nacional não decide nada no seu território.
Para o engenheiro e o construtor
Uma casa vaga que precisa de obras profundas não é oferta: é obra por fazer. Reabilitar onde há procura e construir novo ao ritmo das famílias novas são dois problemas de engenharia diferentes.
Para o jornalista
Números certos: 1,44 casas por família; 723 215 vagas; 154 075 prontas a habitar; 136 800 famílias sem casa adequada (Censos 2021, INE). Evite «há 700 mil casas vazias à espera de famílias»: só cerca de uma em cada cinco está pronta a habitar.
6. Para fazer hoje
Abra o Painel da Habitação, em habitacao.aprecisa343.com, e veja a pergunta «Há casas suficientes em Portugal?». Depois responda a esta pergunta: no seu concelho, faltam casas, ou faltam casas prontas, no sítio certo e a preço possível? Pode responder nos comentários do LinkedIn ou do Facebook, terminando com «Registo autorizado», ou no painel, em habitacao.aprecisa343.com/casa-em-numeros/n1. Os contributos aprovados entram no n.º 2, a 11 de novembro, com o seu nome e a qualidade que indicar. A recolha fecha no domingo, 8 de novembro.
Fontes e nota metodológica
INE — Instituto Nacional de Estatística, Recenseamentos Gerais da População e Habitação (Censos) de 1970, 1981, 1991, 2001, 2011 e 2021: alojamentos familiares clássicos, famílias e alojamentos vagos.
INE, «O parque habitacional: análise e evolução 2011-2021», publicado a 8 de maio de 2024: alojamentos vagos utilizáveis (154 075) e carências habitacionais quantitativas (136 800).
INE, Estatísticas da Construção e Habitação: fogos concluídos em construções novas para habitação familiar (2001–2025), via Painel da Habitação.
Painel da Habitação, Gaspar do Amaral, habitacao.aprecisa343.com, dados de 30 de outubro de 2026.
Método: «casas por família» é o número de alojamentos familiares clássicos dividido pelo número de famílias clássicas de cada censo. «Folga» é a diferença entre os alojamentos vagos utilizáveis e as carências habitacionais. A Rita é uma personagem de exemplo, sem relação com qualquer pessoa real. Capa: por cada 100 famílias há 144 casas (passo 1); 144 × 0,694 = 99,9 ≈ 100 de residência habitual; 144 × 0,185 = 26,6 ≈ 27 de uso sazonal ou secundário; 144 × 0,121 = 17,4 ≈ 17 vagas; destas, 154 075 ÷ 4 149 096 × 100 = 3,7 ≈ 4 prontas a habitar e 17 − 4 = 13 as outras; famílias sem casa adequada: 136 800 ÷ 4 149 096 × 100 = 3,3 ≈ 3 (percentagens do INE, Censos 2021). Cálculos e figuras do autor, © Aprecisa.com, com recurso a IA. Só factos, sem política nem ideologia.